A mala preta para José Aldo

A mala preta para José Aldo

Auslag deu a última tragada em seu cigarro e atirou a bituca pela janela do carro.

Olhou para o outro lado da rua, apenas para se certificar que os dois brutamontes de orelhas deformadas que o escoltaram pra fora da academia não o seguiram, mas apenas observavam cada movimento seu à distância.

Gostava daquele trabalho. Principalmente quando as coisas saiam conforme o planejado.

Mas hoje não é um desses dias.

Olhou no espelho do carro o corte no supercílio e o nariz quebrado, que ardia como o cão, e sujavam a gola branca de sua camisa Armani, de 600 Euros, que ganhou de presente da esposa. FUCK!! Um ponto fora da curva em sua rotina de trabalho, que apesar de muitas vezes tensa, nunca fora violenta.

– Calma Lag, o pior já passou… O Pior já passou. Repetia para si, como que tomando coragem para completar o serviço. Deu um suspiro longo para recuperar o fôlego, pegou o celular e discou para o único número salvo na memória. Depois de dois toques, a telefonista atendeu.

– Cervejaria Dublin, pois não.

– Preciso falar com o Arthur, é urgente.

– Não há ninguém aqui com esse nome, deve ser engano.

– Thelma, é o Lag, passe o Arthur depressa…

– Algum problema com o carregamento, senhor Auslag?

Odiava ser chamado pelo nome completo. E tinha certeza que ela fazia de propósito. Ainda mato aquela maldita gorda!

– Sim, veio uma Heineken no meio das minhas Guinness, agora passe logo o Arthur, sim?!

– Oh, claro! Um momento por favor…

Enquanto ela transferia a ligação, ouvia-se um instrumental de Foggy Dew

– Lag… Esbravejou alguém. É o Arthur! Que merda é essa?!… ele não aceitou?!

– Não.

Olhou para a mala preta no banco do carona, recheada com 1M de Euros.

– Que filho da puta! FILHO DA PUTA!! O que ele tá pensando?!

– Ele não falou muito na verdade, só aquela baboseira moralista de sempre… Esses sul americanos acham que tudo se resolve com lição de moral. Me apresentei como executivo do evento, e que ele teria que assinar alguns formulários de direito de imagem. Fomos para uma sala onde eu fiz a abordagem padrão, mostrando os benefícios de ele aceitar a grana. Porra, ofereci até um hospital em alguma daquelas malditas favelas sujas, mas ele não quis. E não só negou, com toda aquela baboseira moralista, como ainda chamou o treinador e outros dois caras…

Pausou por um instante a narrativa.

– Merda! Está tudo bem contigo? Posso deslocar uma equipe aí para te ajudar e…

-Não. Interrompeu. Não é necessário, vou ficar bem. Além disso, isso não vai fazer ele mudar de idéia.

– Tem razão. Merda, merda, MERDA! Malditos sejam. Como se naquele país de bosta corrupção fosse uma coisa de outro mundo. Ele devia simplesmente ter aceitado a mala, como aquele anão fisiculturista fez! Deixa estar, volta pra cá com a grana. Vamos ter que fazer isso do jeito mais difícil, vou avisar o Owen.

– Ok. Estou a caminho. E chefe…

– Sim.

– Preciso de uma camisa nova.

Sobre Wagner Marques Andrade

"Buenas e me espalho! Nos pequenos dou de prancha e nos grandes dou de talho!" Gaúcho e brasileiro, nesta ordem. Proprietário do MMA Fulltime.